Ausências
(…) Há uma estranha alegria em saber que ainda conseguimos ficar tristes. Significa, entre outras coisas, que não estamos perdidos.
BENEDETTI, Mario. Correio do Tempo, p.82. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
(…) Há uma estranha alegria em saber que ainda conseguimos ficar tristes. Significa, entre outras coisas, que não estamos perdidos.
BENEDETTI, Mario. Correio do Tempo, p.82. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
(…) “Art corresponds to periods of stress much more than it corresponds to periods of well-being and leisure. There is no question that art is not being produced as a result of people having more spare time; it is being produced when all hell is breaking loose and people don’t have enought to eat.”
WRIGHT, Alex. Glut: Mastering Information Through The Ages, p.45-46. Washington DC: John Henry Press, 2001.
Quando o mundo soube que seu avião de segunda linha e com excesso de peso havia descido no Aeroporto Baldonnel em Dublin, 28 horas e trinta minutos depois, Corrigan não só estava ciente do que tinha feito, como também já voara direto para os corações do povo americano. “Sou Douglas Corrigan”, disse aos aeroportuários irlandeses que se reuniram assombrados à sua volta quando ele aterrissou. “Venho de Nova York. Onde estou? Queria ir para a Califórnia”.
SUZUKI JR., Matinas (org.). O Livro das Vidas - Obituários do New York Times, p.134-135. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Tradução de Denise Bottmann.
(…) Um talibã fanático, quiçá louco, saltou para dentro da jaula de um urso e cortou fora seu nariz, achando que a “barba” do animal não era comprida o suficiente. Outro combatente, intoxicado pelos acontecimentos e por seu próprio poder, adentrou a cova do leão e bradou: “Eu sou o leão agora!”. O leão o matou. Outro soldado talibã atirou uma granada na cova, cegando o animal. O urso sem nariz e o leão cego, além de dois lobos, foram os únicos animais que sobreviveram ao regime do talibã.
WRIGHT, Laurence. O vulto das torres, p.257. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Tradução de Ivo Korytowski.
(…) Essa era uma visão generalizada em Ruanda, onde a depressão era epidêmica. O assim chamado instinto de sobrevivência é freqüentemente descrito como uma necessidade animal de autopreservação. Mas, uma vez que a aniquilação física é afastada, a alma ainda requer preservação, e uma alma ferida se torna a fonte de sua própria aflição; ela não pode cuidar de si mesma diretamente. Assim, a sobrevivência pode parecer uma maldição, pois uma das necessidades dominantes de uma alma carente é a de que necessitem dela.
GOUREVITCH, Philip. Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias, p.222. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. Tradução de José Geraldo Couto.
(…) Quando Celina o pegava para anotar no livro de música os números que correspondiam aos dedos, o lápis estava desejando que o deixassem escrever. Como Celina não soltava, ele se mexia ansioso entre os dedos que o sujeitavam, e com seu olho único e pontiagudo olhava indeciso e oscilante de um lado para outro. Quando o deixavam aproximar-se do papel, a ponta parecia um focinho que farejava algo, com instinto de lápis, desconhecido para nós, e observava entre as pernas das notas, buscando um lugar branco onde morder. Por fim Celina o soltava e ele, como um leitãozinho quando mama, se dependurava vorazmente no branco do papel, ia deixando as pequenas pegadas firmes e acentuadas do seu curto casco negro e mexia alegremente o longo rabo vermelho.
HERNÁNDEZ, Felisberto. O Cavalo Perdido e outras histórias, p.31. São Paulo: Cosac Naify, 2006. Tradução de Davi Arrigucci Jr.
No dia treze de janeiro do ano corrente de mil oitocentos e sessenta e cinco, ao meio-dia, Ielena Ivânovna, esposa de Ivan Matviéitch, meu culto amigo, colega de serviço e parente em grau afastado, quis ver o crocodilo que era exibido na Passagem mediante determinada quantia.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O Crocodilo, p.15. São Paulo: Editora 34, 2000. Tradução de Boris Schnaiderman.
Quando chegou mais baixo, passou a voar rasante, sapecando a copa das árvores. De perto, a pista de dança perdia a aparência de flor. Transformava-se numa visão infantil de Ano Novo, um imenso emaranhado de lâmpadas coloridas brilhando por entre os ramos, de onde emanava música de surpreendente vulgaridade e estranha beleza.
PELEVIN, Victor. A Vida dos Insetos, p.51. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. Tradução de Lia Wyler.
Mesmo depois de todos aqueles anos, não compreendia por que os americanos queriam café imediatamente, no instante em que o garçom chegava. Eles tomavam café quente, então suco de laranja gelado, então mais café. Não fazia absolutamente nenhum sentido.
BARNES, Julian. As Coisas Que Sabemos in Um Toque De Limão, p.71. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
Muitas surpresas aguardam os diretores inexperientes. Iron não teve oportunidade de descobrir, ainda, que o papel fracassa diante das câmeras de televisão, que todas as expectativas são enganosas e nada pode ser tomado como certo.
ÖRKÉNY, István. A Exposição das Rosas, p.25. Ed.34, 1993.
Eu me agarraria a toda oportunidade para, em primeiro lugar, verter uma lágrima na minha taça e, a seguir, esvaziá-la em intenção de tudo o que fosse belo e sublime; haveria encontrar este belo e sublime até na mais ignóbil, na mais indiscutível das porcarias, e transformaria em belo tudo o que existisse no mundo.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do Subsolo, p.31 e p.32. São Paulo: Ed.34, 2000.
Sophie, animada de repente por uma obscura, mas forte convicção de que sabia o que havia de errado em tudo, subiu correndo os degraus.
FOX, Paula. Desesperados, pg.42. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
E não havia palavras, porque não havia pensamento possível para essa força capaz de transformar pedaços de lembrança, imagens isoladas e insignificantes, num repentino bloco vertiginoso, numa viva constelação aniquilada pelo próprio ato de mostrar-se, uma contradição que parecia oferecer e negar ao mesmo tempo o que Juan, bebendo o segundo copo de Sylvaner, contaria mais tarde a Calac, a Tell, a Hélène, quando os encontrasse na mesa do Cluny e que agora lhe teria sido necessário possuir de algum modo, como se a tentativa de gravar essa lembrança já não provasse que era inútil, que ele estava jogando pás cheias de sombra contra a escuridão.
CORTÁZAR, Julio. 62 Modelo Para Armar, p.10. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
Minha amante, com seu traje shakespeariano, estava tão perfeita, tão esbelta, tão compacta, que hesitei antes de abraçá-la; chego a pensar que foi uma ilusão — como se algum truque de computador de última geração tivesse melhorado a fita gasta de minha memória — o abraço que trocamos. Seu corpo forte, de ombros largos, com ímpeto atlético da postura na ponta dos pés descalços, apertou-se contra o meu com um ardor ameaçador.
UPDIKE, John. Memórias em Branco, p.256. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
(…) o quê, propriamente, eu vim fazer aqui? - por que é que me sentia tão estranhamente atraído e seduzido pela vida desse homem que desprezava a mim (”é evidente”, “é sabido”, como ele gostava de falar) e aos meus semelhantes? (…)
TSIPKIN, Leonid. Verão em Baden-Baden, p.206. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.