Big Muff

Um blog de aleatoriedades sem um objetivo concreto. Por Bruno Galera.

09.08.08

Can I go and leave my home?

Mais um conflito bizarro renova meu interesse pela Rússia. Se for pros lados do Mar Negro, então, já era: fico totalmente obcecado em ler tudo a respeito.

Meu fascínio pelo continente-país começa, claro, pela literatura. Mas ele foi se fortalecendo na medida em que fui conhecendo mais o cotidiano do lugar através dos séculos, graças a belas reportagens e ao noticiário diário.

Se o humor nasceu com Gogól, como sabiamente disse algum russo quando fez um livro de 800 páginas sobre a origem do riso, também vem dele a síntese perfeita do caráter e dos costumes desse povo gigantesco e assustadoramente unificado. Óbvio que as guerras do separatismo estão aí para me provar o contrário, mas quem tomou contato com todo tipo de relato escrito sabe do mítico conceito de ALMA RUSSA, um sentimento bizarro que envolve nacionalismo e nostalgia infinita de absolutamente tudo, mesmo que isso seja uma casa sem calefação a -50 graus numa parte da Sibéria onde a chuva é cor-de-rosa por causa da radiação (tudo verdade).

nikolai gogol

Todo fã de Gogol Bordello é alemão (dica: evite)

Gogól, com seu humor demente que na verdade é a perfeita tradução de tudo isso, nos faz pensar em limites entre fantasia e realidade na literatura. “Não pode ser, é tudo metáfora, ninguém pode ser assim”. Textos jornalísticos corroboram tudo que ele descreveu em Tarás Bulba, por exemplo, o que mantém um que outro queixo caído em perplexidade.

Ser alertado pelos mestres russos não é o suficiente. A bizarrice da Chechênia é incomparável. Um lugar que conseguiu reunir seitas proto-muçulmanas que misturam cabala e rituais místicos totalmente sem sentido. Alguns líderes da região são temidos pelos talibãs com mão de gancho do Afeganistão, o que não me deixa nem especular sobre o nível de periculosidade daquela região. Adicione tropas moscovitas perdidas há 20 anos entre o Azerbaijão e a Geórgia, sem comida e sem munição, mas que mantêm um museu sobre Tolstói perdido no meio do absolutamente nada, mais a tradição militar clássica do “vamos matar todos eles” mantida com dignidade por Vladimir Putin.

Só pode ser o lugar mais interessante da Terra. Pena que tanta gente morra por bobagem só por causa disso.

27.07.08

Negação da mente

While I was enduring all this, around the 75km mark I felt like I’d passed through something. That’s what it felt like. Passed through is the only way I can express it. Like my body had passed clean through a stone wall. At what exact point I felt like I’d made it through, I can’t recall, but suddenly I noticed I was already on the other side. I was convinced I’d made it through. I don’t know about the logic or the process or the method involved - I was simply convinced of the reality that I’d passed through.

O escritor japonês Haruki Murakami nos conta, em texto no Guardian, sua experiência mística completando uma ultramaratona de 100 km, quando tinha quarenta anos.

23.07.08

Momento classificados

Compro jogos de GameCube, originais e em bom estado. Especialmente se forem da família Resident Evil.

Se alguém tem e está interessado em vender, ou conhece alguém de confiança que gostaria de desfazer, me avise nos comentários. Sim, eu sei que tem no Mercado Livre.

Gracias.

21.07.08

Calendário se enforca

Tirando um pequeno atraso que não comprometeu em nada, o show do Conor Oberst com a Mystic Valley Band foi impecável. O setlist variado, com muitas músicas do Bright Eyes, fez a platéia ficar bastante satisfeita com a oportunidade de ver um artista tão contemporâneo na cidade oficial das reunion tours.

Acho que folk é um termo tão vazio quanto o emo para descrever uma banda. No entanto, a operação preguiçosa que meu cérebro tem seguido ultimamente não conseguiu achar nada mais adequado para abordar o tema.

Oberst tem todos os predicados de um emo/indie dos bons: cabelo liso bagunçado com certo esmero; é um magricelo com voz afetada, que compõe letras bastante confessionais. Do folk, ele traz a preferência por contar histórias e violões dedilhados, muitas vezes puxando por Bob Dylan (desça alguns tons de “First Day Of My Life” e terá alguma semelhança com o clássico “Don’t Think Twice, It’s Alright”). Claro, isso não é o suficiente para que seja rotulado como o substituto do velho Zimmermann, bobagem dispensável dita em mil textos sobre o rapaz de Nebraska.

Sobre o show em si, foi interessante ver a dinâmica de uma banda composta por violão/guitarra, bateria e teclados/sopro. Todos os instrumentos eram percebidos com muita clareza, depois de superado o impacto inicial da reverberação de catedral proporcionada pelo átrio do Santander Cultural. O efeito na verdade deu um ar de grandiloqüência a uma formação enxuta, o que foi bastante bem-vindo. Músicas de arranjos mais megalomaníacos, como “Four Winds”, jamais pecaram pela simplicidade com que foram apresentadas ao vivo, parecendo na verdade naturais em seu estado mais bruto.

Não foi nada revolucionário, mas uma boa chance de testemunhar um artista que esgota ingressos facilmente em qualquer lugar do mundo. E que simplesmente é muito bom, problemas de semiótica à parte.

18.07.08

Não leio mais nada

Descobri nesse minuto (10:12 a.m.) que vai ter um show do CONOR OBERST no Santander Cultural NESSE DOMINGO.

Estou transtornado. Preciso conseguir um ingresso imediatamente.

Atualização: rolou. Iremos muito.  

05.07.08

Benchmark

Já disse que Leslie Feist é a maior cantora, artista e performer da atualidade, né? Sim, eu já disse.

Destaque para a fusão de John Lennon com Eric Clapton deprimido no coro, ao fundo. E bom, tocar banjo de terno e sapato branco também é um ponto alto a se considerar.

04.07.08

Alerta necessário

Esse comercial do novo Gol com a Gisele Bündchen com sotaque de lugar nenhum e o STALLONE TODO DESGRAÇADO é o mais grave atestado de abuso de heroína pelo mercado publicitário brasileiro.

04.07.08

Bacia

Bom, estou definitivamente de volta a Porto Alegre. Emprego novo, vida nova, essas coisas.

Ufa. Acho que os últimos quatro meses foram os mais corridos da minha vida. Valeram a pena, como agora vale estar de novo perto da família e dos amigos.

Do alto da curtíssima experiência como caixeiro viajante, atesto: ter um lugar para chamar de casa (e poder habitá-lo com freqüência satisfatória) é algo fundamental na vida de uma pessoa. Menos o lado material, mais o tecido de relações mesmo.

E segue o baile.

28.06.08

Rei do mundo

Boa entrevista com Shigeru Miyamoto na Wired. Ótimos insights do gênio sobre o futuro do videogame e das interfaces em geral.

26.06.08

Solo de pocilga

Estou totalmente obcecado com músicos autodidatas habitantes de grotas, pântanos e charcos dos Estados Unidos. E que, obviamente, tenham sido dignos o suficiente de jamais gravar mais que um disco.

Dessa estirpe, merecem destaque Scott Dunbar e Robert Cage. O primeiro jamais viajou para mais de 100 milhas além da sua casa, e fez seu primeiro instrumento com 8 anos, juntando caixas de cigarro e fios aleatórios encontrados no lixo. O outro, toooootalmente transtornado, não pode ser descrito em palavras, mas isso aqui ajuda:

ÚNICA BANDA POSSÍVEL. Quando ele aparece dando uma banda na frente do pântano com uma ceva na mão, começo a chorar sem parar.

Mais pode ser lido e ouvido neste blog. Recomendo baixar, escutar e repensar toda sua existência até aqui.

23.06.08

Fiquei surdo daqui

O fim do mundo começou, e eu estou muito longe de poder admirá-lo. O Arlen tinha me avisado, mas o comentário dele ficou preso no anti-spam desse blog por algum motivo torpe.

Já tinha lido uns relatos sobre o retorno do My Bloody Valentine, mas a primeira frase desse artigo da Pitchfork me fez ficar de olhos marejados:

This is the first gig I’ve been to where almost everyone in the audience hoped and expected to leave in pain

Se algum conhecido meu tiver o privilégio de vê-los ao vivo, não me conte. Simulei mentalmente a facilidade com que me tornarei violento, e isso me deixou assustado.

23.06.08

Você sabe que está obcecado por metal quando…

…descobre que o disco do Emperor no repeat que toca na sala ao lado na verdade não passa do ar condicionado central agonizando.

08.06.08

Last action heroes

Já tinha esquecido do show do Megadeth quando o Hermano me ligou oferecendo ingresso. Tinha achado que seria depois do dia 15. Como por essa data já terei ido embora de São Paulo, meio que desencanei da fixação de que não poderia perder, sob hipótese alguma, Pato Donald rosnando com suas flying Vs pela terra brasilis.

No caminho, pela Marginal, um Corsa branco encostou no nosso táxi e perguntou se sabíamos como se fazia para chegar no Credicard Hall. Fora de mim, imediatamente mandei um lml, e os passageiros começaram a berrar MÉGADÉFI. Primeiro detalhe sociológico da noite: todos os metaleiros do carro tinham cabelo curto.

Chegando no local, praticamente só nós vestíamos outras cores que não preto. Crucifiquei-me por não ter levado a câmera, pois a placa anunciando as atrações da semana exibia exatamente o seguinte: “06/06 - Megadeth; 07/06 - Fundo de Quintal”.

Pisamos na escada rolante que levava ao camarote (sim) e já soaram os primeiros acordes. Confortavelmente sentados, fomos obliterados por cinco petardos sem nenhum intervalo, que devem ter somado uns 30 minutos. Segundo detalhe sociológico da noite: um tiozão dos seus 45 anos, sentado ao nosso lado com a sua esposa, fazia air drumming em todas as músicas.

Pausa para um pouco de contexto.

Não omito que não escutei Megadeth na juventude. Eu tinha um gosto musical bizarro nessa época, e logicamente não assistia à MTV. Além do mais, para alguém que considerava Metallica banda de viado, não fazia muito sentido ouvir qualquer coisa que não fosse gutural ou Rap Brasil (sim II).

Voltemos.

O som estava bom e alto pra cacete. No entanto, vi que no fim da bateria de terror, Mustaine chegou junto ao cara da mesa de som e começou a gesticular. Captei um down, down, e percebi que algo estava muito errado. Não deu outra: no meio de uma sonzeira, o cara simplesmente abandonou o palco. Acho que havia problemas no retorno. Tanto que há um comunicado no site oficial da banda sobre isso, em que Renatah Sorrah afirma que essa foi apenas a segunda vez em toda a história que se viu obrigado a abandonar a função no meio de uma performance.

Chuto que o show ficou parado por uns 20 minutos. A platéia, que estava quente com a roda de pogo que, pelo que enxerguei do alto, envolvia no mínimo soco na cara, começou a ficar impaciente. Tênis pararam de pousar acidentalmente no palco, adquirindo um caráter de projétil deliberado.

Talvez percebendo o clima meio tenso, a banda voltou acavalando hits. E tome In My Darkest Hour, Hangar 18 (quase faleci), A Tout Le Monde e Tornado of Souls. Nesse momento comecei a refletir a respeito de um fato bizarro: por que bandas de metal tocam sem NENHUM pedal visível no palco? Várias vezes houve variação de volume, efeitos e canais, o que seria impossível de fazer de forma remota. Os caras deixam para que os roadies pisem no footswitch? Nenhum sentido.

Duas coisas sensacionais foram constatadas. A primeira: as pessoas, na sua maior parte, não cantavam as letras, mas os riffs. Isso foi muito marcante em Symphony of Destruction. A outra é que em momento algum Mustaine tentou falar em português, derrota cometida por 11 entre 10 artistas que vêm ao Brasil. Cala a boca e toca essa guitarra, impropério direcionado por Eduardo Menezes a Marcelo Camelo num show do Los Hermanos que se estendia em declarações gratuitas, seria a única resposta possível caso isso ocorresse.

Saldo final: um pouco de surdez, algum êxtase juvenil injustificado e felicidade geral por ter visto um show digno na terra da Mallu Magalhães.

05.06.08

Eugenio Hackbart = O Messias

Depois de ler esse post no blog da Metsul, comunico a todos que encerra-se a minha existência terrena. Estou tentando parar de chorar sangue, mas é totalmente impossível [gracias, Rico].

03.06.08

Que turbulência que nada

Hoje peguei o melhor vôo desde que comecei a transitar com freqüência em aeroportos. Acordei 4:30 da manhã. A noite ainda era densa e chovia um pouco, prenunciando que a neblina não viria tão cedo. Cheguei no Salgado Filho tranqüilamente, fiz o check-in na Ocean Air e fui comer algo.

O embarque atrasou uns 20 minutos. Logo que todo mundo sentou, o comandante começou a explicar o motivo da demora. Percebi um ALERTA e decidi solicitar uma manutenção. Hmm. Nada muito bom a se dizer para alguém que passa 100% da viagem totalmente paranóico.

Sempre peço lugar na janela, mas hoje o assento era de livre escolha. Pela primeira vez, sentei muito na frente, na fileira 3. Por reflexo, sempre acabo no fundão, onde o barulho é ensurdecedor. Foi muito bizarro não escutar NADA durante o percurso, como se estivéssemos flutuando por cima de tudo. Não sabia que existia a possibilidade de não ter o ouvido triturado durante uma hora e meia e fiquei contente.

O piloto, aliás, mandava ver: alertou para o fato de que sacudiríamos um pouco, porque O FAMOSO CICLONE EXTRA-TROPICAL, que vocês vêem na imprensa, vai passar do nosso lado. O feedback foi sendo tão ativo e o deslocamento tão suave que nem consegui começar a me preocupar. Seguidamente, o cara abria a porta da cabine, dava uma banda e ia tomar um suco de laranja. E voltava para largar mais umas barbadas: nossa equipe é jovem, porém bela e simpática. E por que não, experiente!

No momento de preparar os carrinhos com bebidas e comida, vi que uma das comissárias ficou cantando e fazendo umas dancinhas, totalmente emocionada. Fiquei realmente contente de ver que, mesmo no horário bizarro e em situação climática adversa, todo mundo transmitia uma calma e naturalidade exemplares.

Passando um pouco de Florianópolis, o tempo abriu muito rápido e deu lugar a um edredon de nuvens, que depois se revelou cheio de escarpas e formas montanhosas. Parecia a vista de cima dos alpes, ou uma fotografia de geleiras se desmontando. Nunca vi nada igual.

Por via das dúvidas, sempre pedirei assento perto da porta de entrada e sairei o mais cedo possível, de preferência na madrugada.



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