Já tinha esquecido do show do Megadeth quando o Hermano me ligou oferecendo ingresso. Tinha achado que seria depois do dia 15. Como por essa data já terei ido embora de São Paulo, meio que desencanei da fixação de que não poderia perder, sob hipótese alguma, Pato Donald rosnando com suas flying Vs pela terra brasilis.
No caminho, pela Marginal, um Corsa branco encostou no nosso táxi e perguntou se sabíamos como se fazia para chegar no Credicard Hall. Fora de mim, imediatamente mandei um lml, e os passageiros começaram a berrar MÉGADÉFI. Primeiro detalhe sociológico da noite: todos os metaleiros do carro tinham cabelo curto.
Chegando no local, praticamente só nós vestíamos outras cores que não preto. Crucifiquei-me por não ter levado a câmera, pois a placa anunciando as atrações da semana exibia exatamente o seguinte: “06/06 - Megadeth; 07/06 - Fundo de Quintal”.
Pisamos na escada rolante que levava ao camarote (sim) e já soaram os primeiros acordes. Confortavelmente sentados, fomos obliterados por cinco petardos sem nenhum intervalo, que devem ter somado uns 30 minutos. Segundo detalhe sociológico da noite: um tiozão dos seus 45 anos, sentado ao nosso lado com a sua esposa, fazia air drumming em todas as músicas.
Pausa para um pouco de contexto.
Não omito que não escutei Megadeth na juventude. Eu tinha um gosto musical bizarro nessa época, e logicamente não assistia à MTV. Além do mais, para alguém que considerava Metallica banda de viado, não fazia muito sentido ouvir qualquer coisa que não fosse gutural ou Rap Brasil (sim II).
Voltemos.
O som estava bom e alto pra cacete. No entanto, vi que no fim da bateria de terror, Mustaine chegou junto ao cara da mesa de som e começou a gesticular. Captei um down, down, e percebi que algo estava muito errado. Não deu outra: no meio de uma sonzeira, o cara simplesmente abandonou o palco. Acho que havia problemas no retorno. Tanto que há um comunicado no site oficial da banda sobre isso, em que Renatah Sorrah afirma que essa foi apenas a segunda vez em toda a história que se viu obrigado a abandonar a função no meio de uma performance.
Chuto que o show ficou parado por uns 20 minutos. A platéia, que estava quente com a roda de pogo que, pelo que enxerguei do alto, envolvia no mínimo soco na cara, começou a ficar impaciente. Tênis pararam de pousar acidentalmente no palco, adquirindo um caráter de projétil deliberado.
Talvez percebendo o clima meio tenso, a banda voltou acavalando hits. E tome In My Darkest Hour, Hangar 18 (quase faleci), A Tout Le Monde e Tornado of Souls. Nesse momento comecei a refletir a respeito de um fato bizarro: por que bandas de metal tocam sem NENHUM pedal visível no palco? Várias vezes houve variação de volume, efeitos e canais, o que seria impossível de fazer de forma remota. Os caras deixam para que os roadies pisem no footswitch? Nenhum sentido.
Duas coisas sensacionais foram constatadas. A primeira: as pessoas, na sua maior parte, não cantavam as letras, mas os riffs. Isso foi muito marcante em Symphony of Destruction. A outra é que em momento algum Mustaine tentou falar em português, derrota cometida por 11 entre 10 artistas que vêm ao Brasil. Cala a boca e toca essa guitarra, impropério direcionado por Eduardo Menezes a Marcelo Camelo num show do Los Hermanos que se estendia em declarações gratuitas, seria a única resposta possível caso isso ocorresse.
Saldo final: um pouco de surdez, algum êxtase juvenil injustificado e felicidade geral por ter visto um show digno na terra da Mallu Magalhães.